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OS DIREITOS (E DEVERES) DA CRIANÇA: RELAÇÃO PAIS E FILHOS

Dra. Márcia de Mendonça Jorge – psicanalista - 19/12/2008


Um conceito de família (Raquel Soifer):
Estrutura social básica formada por um conjunto de pessoas unidas (ou não) por laços de consangüinidade, que convivem por um período longo de tempo e se relacionam num entrejogo de papéis diferenciados (pai, mãe, filhos) e de relações recíprocas com a sociedade e a cultura, em que vai se estruturando e desenvolvendo o ser humano como ser bio-psico-social até tornar-se um adulto capaz e inserido na ordem social. Um dos objetivos da família é preservar a vida, o que é realizado através do processo de educação e de formação da personalidade de seus membros – crianças e adolescentes – através de ações que abrangem o cuidado físico, o desenvolvimento da capacidade de relacionamento familiar e social, a aptidão para a atividade produtiva e para a inserção profissional e a transmissão e a criação de normas culturais destinadas à convivência em geral.

Outro conceito de família (Maurício Knobel):
Instituição sociocultural e afetiva, um dos grupos primários e naturais da sociedade, nos quais o ser humano vive e consegue se desenvolver. Na interação familiar, configura-se precocemente a personalidade, determinando-se as características sociais, éticas, morais e cívicas dos integrantes da comunidade adulta.

Funções da família: Defesa e preservação da vida (R. Soifer)
1. Ensinar o cuidado físico: - respiração, alimentação, sono, vestir-se, locomoção, linguagem, higiene, perigos etc.
2. Ensinar as relações familiares:
- elaboração da inveja, ciúmes e narcisismo.
- desenvolvimento do amor, respeito, solidariedade e características psicológicas de cada sexo.
- elaboração do complexo de Édipo.

3. Ensinar a atividade produtiva e recreativa - aprender a aprender - :
- jogar e brincar.
- tarefas domésticas - destreza física
- estudos e tarefas escolares
- artes
- desportos

4. Ensinar as relações sociais:
- com outros familiares: avós, primos, tios etc.
- com amigos e outras pessoas em geral.

5. Ensinar as relações afetivas e sentimentais:
- escolha de um parceiro
- noivado e casamento.


O bebê, ao nascer, é totalmente dependente de outras pessoas para sobreviver e constituir-se enquanto ser humano. Na verdade, ele é apenas potencialmente humano: tem características biológicas e fisiológicas do ser humano, contudo, para se tornar humano propriamente, deve aprender a falar, a significar, a ter limites, a introjetar e assimilar regras e normas, a fim de conviver com outros seres humanos em sociedade.

O papel dos pais é primordial para o alcance desses objetivos, isto é, tornar plenamente humana sua cria. Eles deverão ensinar aos filhos todas as tarefas, comportamentos e atitudes apropriadas para a vida em sociedade. Serão as primeiras referências de ser humano para a criança. Posteriormente, a família extensa, a escola, os amigos e outras pessoas auxiliarão nessa tarefa.

A mãe, ou o substituto materno, é quem estabelecerá o primeiro contato com a criança após o nascimento, através do aleitamento que garantirá a sobrevivência do filho. Ao dar-lhe o seio, a mãe está significando uma necessidade da criança e uma demanda. A criança chora e a mãe significa que é fome, dando-lhe o peito. Em outro momento a criança chora e a mãe significa que ela está molhada, trocando-lhe a fralda, e assim por diante. A mãe vai percebendo o seu bebê e lhe oferecendo os objetos que considera serem o que ele lhe está demandando. A mãe “suficientemente boa” é aquela que consegue perceber as necessidades de seu filho e atendê-lo na medida dessas necessidades. Também é aquela que tem o bom senso de saber quando a criança pode esperar ser atendida e quando não pode esperar mais para ser satisfeita em suas demandas. Esse jogo de frustrar e satisfazer a criança é que vai introduzi-la no princípio de realidade, isto é, ela aprenderá que não pode ser satisfeita imediatamente e aprenderá que deve adiar a satisfação de suas necessidades para viver em sociedade. Dessa maneira, ela aprenderá o interjogo do princípio do prazer e do princípio da realidade. Isso significa que, ao nascer, o bebê encontra-se no princípio do prazer, isto é, deseja a satisfação imediata de todas as suas necessidades. Aos poucos, quando vai amadurecendo, ele vai entrando no princípio de realidade, o que significa que percebe que nem tudo que deseja pode ser realizado imediatamente. E quem faz essa função de introduzi-lo na realidade é primeiro a mãe, o pai e as outras pessoas com quem ele se relacionará no decorrer de seus primeiros meses e anos de vida. Esta é a primeira função dos pais para que seus filhos tenham uma vida saudável e para que se relacionem saudavelmente com seus pais, familiares e com as pessoas em geral.

Ao mesmo tempo em que ensina a realidade, coloca limites, frustra e gratifica nos momentos adequados, os pais devem dar amor e afeto aos seus filhos. A base do desenvolvimento saudável e das relações saudáveis são as relações afetivas primárias pais-filhos, que sustentarão toda a imposição de regras, normas e limites para a criança. A criança amada pelos pais obedecerá e aceitará as regras exatamente para não perder o amor deles (ela assim o imagina). Assim, uma criança amada e desejada pelos pais tem mais condições de crescer saudavelmente e estabelecer vínculos e relações saudáveis do que uma criança pouco amada e abandonada.

Contudo, demonstrar afeto e amor não significa satisfazer todos os desejos da criança, dar-lhe todos os brinquedos, todos os biscoitos, sorvetes e balas, roupas etc. A criança, para valorizar o que recebe, deve aprender a esperar pelo que deseja. Não se deve dar presentes todos os dias da semana. Guarde na cabeça ou escreva tudo o que a criança pede em termos de objetos e brinquedos para dar-lhe nas datas apropriadas: aniversário, Natal, dia das crianças. Só esporadicamente você deverá dar-lhe presentes em outras épocas. Porém, o que é necessário pode ser oferecido no tempo que for demandado: objetos escolares, roupas.

Mas é claro que a criança também testará seus pais, fará birras, desobedecerá e terá comportamentos inapropriados. Afinal, é criança e está em fase de aprendizagem. E a aprendizagem é um processo que leva tempo para atingir seus objetivos. Os pais terão que falar diversas vezes para que ela consiga apreender e assimilar, terão que “fazer a cabeça” da criança para que ela aprenda as normas e regras da boa convivência. Dizer “não” aos filhos pequenos e também aos maiores, adolescentes, é muito importante, como também é importante explicar-lhes os motivos da negativa. Eles podem não aceitar imediatamente. Mas assim como a planta, para crescer e ficar bonita tem que ser regada e cuidada todos os dias, as crianças, em muito maior grau, necessitam ser olhadas e cuidadas para que cresçam saudáveis e atinjam a maturidade com bem-estar e qualidade de vida.

Os pais deverão conversar com a criança e também com o adolescente, demonstrar afeto e amor e ao mesmo tempo deverão mostrar o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau, decodificando-lhe os sentimentos em relação a isso. Por exemplo: Dizer que ela não poderá comer o biscoito desejado antes do almoço porque senão ela não terá apetite para almoçar. Dizer que o almoço é mais importante e ser continente da raiva e da frustração que ela porventura terá por não ter sido deixada a comer o biscoito desejado.

Não se sentir culpado. Este é um princípio básico da boa maternidade e paternidade. Impor limites, restrições e até punições aos filhos faz parte da boa formação de suas personalidades e da boa educação. Não se sinta culpado. Você está impedindo-o de fazer algo para o bem dele, para que ele aprenda a ser um indivíduo bom, adequado, amado e reconhecido pelos seus amigos e pelas pessoas em geral.

Referências Bibliográficas
. Soiffer, Raquel . Psicodinamismos da família com crianças. Editora Vozes: Petrópolis, RJ, 1982.
. Knobel, Maurício. Orientação Familiar. Papirus: Campinas, SP, 1992.
. Winnicott, D.W. A criança e seu mundo. Ed. Zahar: Rio de Janeiro, 1985.