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Por Fabrícia Viana Alves Pinto, fonoaudióloga da Clínica Anima.

Muitas vezes as alterações de linguagem podem interferir no processo de aprendizagem
da leitura e da escrita, levando o indivíduo a apresentar um distúrbio de aprendizagem ou
distúrbio específico de linguagem. O texto tem como objetivo tecer considerações sobre o
desenvolvimento da linguagem oral e escrita relacionando com um caso clínico.
Existem vários estudos sobre o processo de desenvolvimento da linguagem oral com
diferentes abordagens. Alguns autores valorizam a ação comunicativa da linguagem da
criança (pragmática), outros a forma da linguagem (fonologia e morfossintaxe); outros
o seu conteúdo (léxico e a semântica); e, os correlatos anatômicos e fisiológicos da
linguagem.
Pesquisas foram realizadas com o foco na comunicação pré-verbal como a precursora
do surgimento da comunicação verbal, porém a comunicação pré-verbal não é a única
condição para o aparecimento da linguagem oral. Algumas habilidades pré-linguísticas
podem ser observadas na criança pequena e serem consideradas como indícios de possível
atraso de linguagem.
A fonologia, a morfossintaxe, o léxico, a semântica e a pragmática são fundamentais
na aquisição normal da linguagem da criança com o outro na atividade dialógica em
desenvolvimento e serão primordiais para a aquisição da leitura e escrita. Porém, a
competência linguística envolve conhecimento maior da complexa estrutura de regras
gramaticais e a interação de muitas outras habilidades.
Sinais de um distúrbio de linguagem podem aparecer ao longo do tempo e revelar futuras
incapacidades desenvolvimentais e/ou cognitivas.
Ao ingressar na escola, esperasse que a criança encontra-se com as suas habilidades
linguístico-cognitivas adequadas para a aprendizagem de leitura e escrita, entretanto, ela
não tem noção de que aspectos fonológicos relacionados à linguagem oral são necessários
para ler e escrever.
As alterações da linguagem oral podem fazer parte das manifestações de diversos
quadros que afetam o desenvolvimento infantil, por exemplo, uma síndrome ou atraso de
linguagem em decorrência de uma causa orgânica ou emocional.
O caso clínico a ser apresentado é de uma criança do sexo feminino, 5 anos, que iniciou
acompanhamento fonoaudiológico aos 3 anos e meio por não conseguir acompanhar os
colegas de sala, além de trocas na fala e perda auditiva de grau moderado bilateralmente.
Foi diagnosticado então um atraso de linguagem. Na anamnese e na avaliação foram
colhidos dados importantes que devem ser citados, como a agressividade com os colegas,
a desatenção, a falta de concentração, o desinteresse pelas atividades em grupo, além de
trocas importantes na fala.
O processo de leitura tem início com a percepção visual e a análise do grafema, continua
com a recodificação de grafemas para as estruturas fonéticas correspondentes e se
completa com a compreensão do sentido do que foi lido.

Ø Compreensão e interpretação da língua falada no cotidiano
Ø Memória auditiva e ordenação
Ø Memória visual e ordenação
Ø Habilidade no processamento das palavras
Ø Análise estrutural e contextual da língua
Ø Síntese lógica e interpretação da língua
Ø Desenvolvimento e expansão vocabulário
Ø Fluência na leitura
A linguagem escrita deve ser considerada como um sistema de representação da língua,
cuja aprendizagem significa a apropriação de um novo objeto de conhecimento. A questão
fundamental é compreender que este objeto e o entendimento da estrutura do sistema
alfabético do português significa a percepção dos sons durante a produção da linguagem
oral influencia diretamente no desenvolvimento da escrita.
Relacionando o desenvolvimento da linguagem escrita com o caso clínico, a criança
não apresentava todas as habilidades cognitivas e perceptivo-linguísticas necessárias
desenvolvidas para aprender a ler e escrever, como atenção, concentração, seguimento de
instruções, compreensão e interpretação da língua falada no cotidiano, memória auditiva e
ordenação, e memória visual e ordenação. Logo, era uma candidata forte a ter um distúrbio
de aprendizagem, caso não fosse iniciado uma intervenção precoce do fonoaudiólogo junto
à criança, a família e a escola.
Podemos perceber nas habilidades da linguagem relacionadas à aprendizagem da leitura
e escrita que a linguagem escrita inclui uma séria de processos em nível de fonema, tais
como a procura de sons isolados, sua contraposição, a codificação de sons separados em
letras, a combinação de sons e letras isoladas em palavras completas. As diferenças entre a
linguagem oral e escrita encontram-se no nível léxico.
A tomada da consciência da palavra enquanto forma linguística é algo que se desenvolve
gradualmente, pois para a criança entender que no sistema de escrita alfabética as letras são
desenhos, que representam partes da palavra, é uma conquista que pressupõe uma evolução
no seu pensamento.
Alguns autores consideram que a consciência fonológica é um fator que precede a
aprendizagem da leitura e escrita, e outros sugerem que tal consciência pode acompanhar a
aprendizagem escolar ou resultar dessa aprendizagem.
Outros autores consideram que a condição necessária para a alfabetização é a aquisição
do princípio alfabético, alcançado quando a criança apresenta consciência de que a língua
falada é segmentável em unidades, a consciência de que essas unidades se repetem em
diferentes palavras ouvidas e conhecimento das regras de correspondência entre grafemas.
É citado também, que além da consciência fonêmica, é essencial a consciência sintática
no reconhecimento de palavras durante a leitura. Logo, os conhecimentos fonológicos e

sintáticos são contribuintes simultâneos para a aprendizagem da leitura.
A consciência fonológica e a aquisição da leitura e escrita são processos que fortalecem
mutuamente, por serem procedimentos altamente complexos, que envolvem uma série de
habilidades.
A leitura pode ocorrer de duas formas: uma é por processo indireto (envolve mediação
fonológica – processo fonológico) e a outra é por processo direto (processo visual/lexical).
Relacionando o exposto com o caso clínico, a criança não apresentava as habilidades
de consciência fonológica adequadas e não conseguia acompanhar os colegas de classe.
Então, era necessário desenvolver um trabalho de estimulação da consciência fonológica,
capacidade importante essa para desenvolver a leitura e a escrita, além das outras
habilidades importantes para aprender a ler e escrever.
Os prejuízos ou atrasos no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem oral,
decorrentes de disfunção neuropsicológica, fator genético ou neurológico, acarretam
dificuldades linguístico-cognitivas, que se refletem na aprendizagem da leitura e escrita,
ocasionando os distúrbios específicos de leitura ou distúrbio de aprendizagem sem retardo
mental.
Em relação ao caso clínico citado, caso não houvesse uma intervenção precoce, a criança
poderia apresentar um distúrbio de aprendizagem quando entrasse para a escola.
As manifestações cognitivo-linguísticas dos problemas de aprendizagem relacionados
às alterações de linguagem incluem o distúrbio específico de leitura e o distúrbio de
aprendizagem.
As crianças de risco para as dificuldades escolares posteriores devem ser submetidas
a avaliações cognitivo-linguísticas periódicas para melhor acompanhamento de seu
desenvolvimento, e se for necessário, programas de educação individual devem ser
elaborados com pais, professores, fonoaudiólogos e psicólogos para que as dificuldades
delas sejam minimizadas e suas potencialidades em relação a habilidades de linguagem e
memória sejam maximizadas, para que os prejuízos em situação escolar sejam diminuídos.
Em relação ao caso apresentado ao longo do texto, foi importante um acompanhamento
fonoaudiológico e um trabalho conjunto com a família e a escola, para que a criança
apresentasse uma evolução favorável e pudesse acompanhar os colegas de sua idade.
Ao final do tratamento, observou-se que a paciente apresentava um desenvolvimento
compatível com a idade, apresentava desenvolvida a maioria das habilidades cognitivas e
perceptivo-linguísticas, participava de atividades em grupo e não era mais agressiva com
os colegas.
Conclui-se que com uma intervenção precoce em crianças com alterações de linguagem
oral, podemos conseguir uma resposta favorável face à aprendizagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAPELLINI, S. A. & OLIVEIRA, K. T. Problemas de Aprendizagem Relacionados às
Alterações de Linguagem. In: CIASCA, S.M. Distúrbios de Aprendizagem: Proposta de
Avaliação Interdisciplinar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. Cap. 6, p. 113-139.
NICOLIELO, Ana Paola et al. Desempenho escolar de crianças com Distúrbio Específico
de Linguagem: relações com habilidades metafonológicas e memória de curto prazo. Rev.
soc. bras. fonoaudiol., São Paulo, v. 13, n. 3, 2008 . Disponível em <http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-80342008000300008&lng=pt&nrm=iso>.
Acessos em 19 set. 2011.