Como enfrentar o Envelhecimento de maneira inteligente
Profa. Márcia de Mendonça Jorge
O interesse pelo processo do envelhecimento e da velhice vem aumentando consideravelmente no mundo inteiro e, em especial no Brasil. A principal causa desse interesse, ou sua causa mais visível, é o nítido envelhecimento de nossa população. O Brasil possui, atualmente, quatorze milhões de idosos, ou seja, de pessoas acima de 60 anos de idade. Em 1975 este número era de seis milhões, e em 2025 será de 32 milhões de pessoas. De acordo com estes dados, o Brasil, considerado até hoje um país de jovens, será um país de velhos num futuro próximo. A preocupação crescente com a velhice é,então, pertinente, a fim de não termos velhos desamparados como hoje temos crianças desamparadas. A longevidade humana foi grandemente afetada pelo desenvolvimento científico, principalmente no século XX. Nesse século, houve um aumento significativo na expectativa de vida da população: lembremos, por exemplo, da Roma antiga, onde a vida média era de 25/35 anos; no século XIX, na Europa, era de 40/45 anos, e atualmente, às portas do século XXI aproxima-se de 75/85 anos, no primeiro mundo. Esse aumento expressivo da expectativa de vida humana é devido a vários fatores: melhoria das condições de higiene e de alimentação na infância, melhora do saneamento básico, desenvolvimento da medicina e da biologia genética, no sentido do diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças.
O envelhecimento se dá de maneira distinta nas pessoas. Ele depende de fatores genéticos, orgânicos, psicológicos e sociais, e depende muito de como a pessoa viveu sua própria vida em todos os seus períodos. Temos duas formas de envelhecimento: o saudável, chamado senescência, e o patológico, chamado senilidade. Do ponto de vista biológico, os problemas do idoso são predominantemente de ordem neurológica, variando a quantidade e a intensidade das deficiências neurológicas, na senescência e na senilidade. No envelhecimento, ocorrem sucessivas alterações metabólicas neuronais com desvios bioquímicos, com formação acelerada de radicais livres e formação de peróxidos que vão se acumulando nas células, levando-as à morte. As funções cognitivas da aprendizagem, memória e reconhecimento implicam a retenção e estocagem de material bioquímico num nível estável. Desse modo, o envelhecimento neuronal comprometerá todas essas funções integrativas/psíquicas do sistema nervoso, afetando diretamente a qualidade de vida do idoso. O processo de envelhecimento compromete as funções que capacitam o indivíduo para a vida social, diminuindo a capacidade intelectual, afetando a memória, o raciocínio lógico, o juízo crítico, as funções práxicas e gnósicas, a orientação no espaço, a fala e a comunicação, a afetividade, a conduta e a personalidade.
Contudo, o envelhecimento é gradual, e as funções adaptativas do ser humano o capacitam a lidar de maneira saudável com o lento envelhecer. Apenas no envelhecimento patológico, como no caso das demências (Alzheimer, por exemplo), o indivíduo torna-se incapacitado para muitas atividades da vida cotidiana. Mas esses casos representam uma parcela menor entre os idosos (10-15%), prevalecendo o envelhecimento sadio, em que o comprometimento neurológico é mínimo e gradual.
Falaremos agora sobre alguns aspectos do envelhecimento em geral, situando o envelhecimento no mundo contemporâneo. Situaremos, também a maturidade e o envelhecimento no processo evolutivo do ser humano, analisando as perdas reais e os ganhos que acontecem nessa fase. Enfatizaremos que, apesar das várias perdas e lutos vivenciados, é sempre possível resgatar e criar novas possibilidades para o indivíduo na maturidade, e dar sentido à vida.
O estudo da velhice e dos processos de envelhecimento inscrevem-se num contexto humano mais amplo, histórico, econômico, psicológico e social e se inserem nas teorias de desenvolvimento que originaram-se nos estudos de Darwin e Spencer no século XIX. Essas teorias baseiam-se em etapas sequenciais que se iniciam na criança, considerada como tendo uma mente pouco desenvolvida, primitiva e mesmo selvagem, até o estágio mais evoluído e desenvolvido do adulto. Abrangem dois enfoques: o biológico-evolucionista e o pedagógico-normativo. O primeiro vem das ciências naturais e da medicina, e fundamenta-se no crescimento do organismo em termos de atributos e funções psicológicas que sofrem um processo de mudança, segundo uma sequência hierarquizada até a maturação, e depois passa a regredir e a involuir até a morte. O enfoque pedagógico-normativo pressupõe uma sequência de eventos que normatizam o desenvolvimento, da infância à vida adulta, enquanto processo de socialização e de capacitação à vida social e produtiva. Nesse ponto de vista, toda a teoria do desenvolvimento fundamenta-se numa noção de temporalidade linear perfazendo uma sucessão de eventos sequenciais, numa linha temporal irreversível que vai do passado, passando pelo presente até o futuro.
Essa noção de tempo, comum às sociedades modernas, pressupõe uma ética voltada para o futuro, que, contudo, não sabemos quanto vai durar. E neste futuro não há lugar para o velho, porque ele não é futuro, ou, no máximo, seu futuro é a morte (como se não fosse para todos nós). Vemos hoje, uma crescente aversão ao processo de envelhecimento, na sociedade industrial avançada. Parece que sempre houve um medo da morte, e os seres humanos sempre desejaram viver eternamente. Contudo, na atualidade, a velhice toma uma nova dimensão, na ausência de valores religiosos e no escasso interesse pela posteridade demonstrado pelos indivíduos. A medicina tenta aumentar a vida do homem através das novas tecnologias medicamentosas, cirúrgicas, laboratoriais e outras, assim como as outras ciências também contribuem para o aumento da expectativa de vida humana, através da transmissão e sedimentação de valores como a necessidade da melhoria da qualidade de vida, através da utilização de dietas mais saudáveis, do incentivo ao exercício físico, do estímulo a uma vida mais agradável para os indivíduos, com lazer, trabalho prazeroso etc. Tudo isto fez aumentar a expectativa de vida do homem, melhorou relativamente sua qualidade de vida, e fez surgir uma nova etapa evolutiva da vida: a chamada quarta idade, que segundo os estudiosos, compreende as idades superiores a 80 anos. Para Lasch, estudioso do envelhecimento, contudo, não há melhora de qualidade de vida dos idosos, a não ser que falemos de vida biológica, apenas, vida vegetativa. Segundo ele, a condição das pessoas idosas tem-se deteriorado objetivamente, nos tempos modernos. As pessoas idosas são consideradas inúteis, e sem uso para a sociedade, que valoriza a força física, a destreza, a adaptabilidade e a capacidade de criar novas idéias, enfim, uma produtividade objetiva e material, que exclui a “sabedoria dos cidadãos mais velhos”, como algo que não serve para o mundo frenético atual. Também dentro deste aspecto, cabe o culto à juventude, que enfraquece mais ainda a posição dos que não são mais tão jovens. Junto com a beleza física, perde-se, muitas vezes, a saúde plena e a extensão infinita do futuro, e instala-se inexoravelmente o sentimento de finitude.

